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25 de marzo de 2015

Herberto Hélder

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

23 de agosto de 2014

Hélder, en estado puro

No sé cómo decirte

No sé cómo decirte que mi voz te busca
y la atención comienza a florecer, cuando sucede una noche
espléndida y colosal.
No sé qué decir, cuando lejanamente tus muñecas
se llenan de un brillo luminoso
y te estremeces como un pensamiento íntimo. Cuando,
iniciado en el campo, el centeno inmaduro se ondula tocado
por el presentir de un tiempo distante,
y en la tierra crecida los hombres entonan una vendimia
- yo no sé cómo decirte que cientos de ideas,
dentro de mí, te buscan.

Cuando las hojas de la melancolía arremeten contra los astros
al lado del espacio
y el corazón es una semilla inventada
en su fondo oscuro y en su huracán diario,
tú arrebatas los caminos de mi soledad
como si toda la casa ardiese descansando en la noche.
- y entonces no sé qué decir
junto a la taza de piedra de tu silencio tan joven.
Cuando los niños despiertan sobrecogidos en la luna
de donde caen a veces en medio del tiempo
- no sé cómo decirte que la pureza,
dentro de mí, te busca.

Durante la primavera entera aprendo
los tréboles, el agua sobrenatural, el leve y abstracto
correr del espacio -
y pienso que voy a decir algo con sentido,
pero cuando la sombra cae de la ávida curva
de mis labios, siento que me faltan
un girasol, una piedra, un ave - cualquier cosa extraordinaria.

Porque no sé cómo decirte sin milagros
que dentro de mí está el sol, el fruto,
el niño, el agua, el dios, la leche, la madre,
el amor,


que te buscan. 


....



López-Villaseñor detestaba esas combinaciones de la pintura con otras manifestaciones del arte, muy del gusto de galerías de arte moderno. Decía que el cuadro en sí mismo, la pintura, debía ser suficiente transmisor, sin más apoyos. Es el objetivo del artista: buscar la profundidad del trazo, la luz, el color... que todo quede dicho dentro de ese espacio entre cuatro esquinas, de ahí proyectarse hacia afuera, adentrarse en el ojo del espectador. Algo así sucede con la escritura, especialmente con la poesía; no necesita de enredos ni complejidades, ni prescindibles alusiones a otros poetas ni sus obras (¿metapoesía?), ni tan siquiera como ornamento ni principio de una imagen o idea. No precisa beber de más fuentes que la emoción y la palabra. Basta el ejemplo de ahí arriba, pureza que se aleja de todo artificio e impostura. Herberto Hélder, Portugal 1930